A peça Hamlet, montada por Aderbal Freire-Filho e largamente conhecida por ser estrelada pelo Capitão Nasc^H^H^H^H^H^H^H Wagner Moura, estreiou recentemente em São Paulo. Ignorando aspectos de atuação (embora posso soltar de leve aqui um wagner_moura++ e <mina que fez a ofélia>–, aliás, ela foi a única atuação que eu realmente não gostei na peça, mesmo ela tendo a grande vantagem de ser absurdamente bonita), o grande ponto negativo da peça, que impede qualquer pessoa que a tenha visto de realmente poder apreciar o quão boa ela poderia ser, foi a eliminação quase que total do personagem Fortinbras. Ora, se não é (sempre quis começar um parágrafo assim) Fortinbras que joga uma sombra de dúvida sobre todos os personagens que permanece durante toda a peça, com a ameaça de sua invasão do reino da Dinamarca. E se não é a sua chegada no final que revela aos espectadores que as mortes que abundam não foram totalmente em vão, atribuindo ainda a Hamlet o status de herói do povo.
Por quê não se pode deixar isso de lado, levando-se em conta restrições temporárias às quais a peça estava restrita (esta montagem teve aproximadamente três horas de duração, sendo que a última da qual eu tenho notícia aqui no Brasil teve seis horas [1]) ?
Há várias vertentes no teatro que defendem que a encenação não deve fazer nenhum tipo de alterações ao texto original e este, junto de seu autor, é colocado numa espécie de altar sagrado. Maeterlinck dizia :
A maioria dos grandes poemas da humanidade não foi feita para o palco. Lear, Hamlet, Otelo, Macbeth, Antônio e Cleópatra não podem ser representados, é perigoso vê-los em cena. Alguma coisa de Hamlet morreu para nós no dia em que o vimos morrer em cena. O fantasma de um ator deteriorou-o e não conseguimos mais afastar esse usurpador dos nossos sonhos. [2]
Ou podemos mesmo citar aqui o purismo de Jacques Copeau, defendendo que a “encenação deveria ser a arte, mais leve e sutil, de fazer faiscar todas as facetas de um belo texto” e rejeitando o que ele chamava de espetáculo espetacular.
Uma das quebras mais exemplares com esse textocentrismo vem das adaptações da obra de Tchecov feitas por Stanislavski [3], aonde após acusações de deturpação, através da encenação, de suas obras, Stanislavski se defende proclamando sua fidelidade às indicações cênicas de Tchecov, e tomando ai a posição não só de mero encenador, mas também de co-responsável pelo aspecto criativo do produto final, ou seja, do espetáculo (ou melhor, daquele espetáculo pontual, tendo-se em vista o caráter um tanto efêmero do resultado da obra teatral).
Mas aonde podemos observar isso num campo um tanto mais atual, se não na explosão quantitativa de adaptações de arte sequêncial[4] aos cinemas. Tomemos como primeiro exemplo o filme “300”, adaptado da obra de Frank Miller. Pode-se tomar três atitudes distintas ao se tentar avaliar esse filme :
- Ignorando a sua origem e analizando-o de forma isolada [5] (o que acaba sendo feito pela maioria das pessoas, já que o alcance do filme acredito tenha sido muito maior do que o da obra original).
- Levando-se em conta a sua origem porém também notando a as diferenças impostas pela apresentação cinematográfica.
- Como uma deturpação desnecessária de uma obra previamente perfeita.
TODO :
- continuar a analogia
- caso do V
- sair da analogia e voltar pra hamlet
- possivelmente rolar um rickroll
[1] Deve-se notar que foi feita pelo Zé Celso, também conhecido por fazer a versão de Os Sertões dividida em umas 4 partes, de 5 ou 6 horas cada, responsável por levar ao suícidio, pelo menos mental, de vários espectadores. Alguns mais de uma vez.
[2] La jeune Belgique, p 331.
[3] “Shove this”, Jay-Oh-Bee (trilha sonora do filme Office Space), música a qual estou ouvindo neste momento e que não tem relação alguma com o texto.
[4] Vulgarmente chamadas de Histórias em Quadrinhos.
[5] Neste momento meu celular resetou sozinho pela 5a ou 6a vez desde que iniciei a escrita do texto, fica aqui o registro de putidão (possível sic.) com a Nokia neste momento.
[6] http://www.xkcd.com/451/